Definição
A EUDI Wallet (European Digital Identity Wallet) é o bloco operacional do eIDAS 2: uma aplicação móvel fornecida por cada Estado-membro.
Ela contém a identidade oficial do cidadão (PID), atestações verificadas (diplomas, habilitação, cartão de saúde), uma chave de assinatura qualificada (QES) e meios de autenticação forte (biometria + secure element). Cada Estado deve fornecer pelo menos uma até o fim de 2026; a carteira é opt-in para o cidadão, mas de aceitação obrigatória pelas VLOP, bancos, telecoms e administrações.
Arquitetura (segundo o ARF)
Os credentials se dividem em PID (identidade assinada pelo Estado), AAQ (atestações de atributos qualificadas emitidas por um TSP), AANQ (não qualificadas, emitidas por qualquer ator) e QES (chave de assinatura qualificada embarcada). No lado dos padrões: OpenID4VCI para a emissão, OpenID4VP para a apresentação, SD-JWT para a divulgação seletiva, mDoc (ISO 18013-5), Verifiable Credentials W3C e uma PKI X.509 ancorada na EU LOTL.
Níveis de garantia
- High — para o PID, equivalente ao documento nacional de identidade eletrônico: cadastro presencial, secure element de hardware, biometria.
- Substantial — para a maioria das atestações correntes, equivalente à SCA.
- Low — uso limitado (fidelidade…).
O papel dos Estados
Cada Estado deve notificar pelo menos uma carteira à Comissão, emitir o PID gratuitamente, submeter a carteira a uma auditoria ARF e garantir sua disponibilidade, segurança e portabilidade. Ele pode fornecê-la diretamente (France Identité) ou credenciar operadores privados (modelo bancário em alguns países).
O caso France Identité
A aplicação France Identité (DINUM + Ministério do Interior) existe desde 2022, integra o documento nacional de identidade eletrônico, evolui para a carteira EUDI francesa, colabora com a ANSSI para a qualificação High e se integra ao FranceConnect+.
Privacy by design
- Selective disclosure (SD-JWT): revelar apenas o que é solicitado ("maior de idade" sem a data de nascimento).
- Unlinkability: duas apresentações não podem ser vinculadas entre si pelos verificadores.
- Carteira local: os credentials permanecem no telefone, sem base centralizada passível de vigilância.
Casos de uso principais
- Bancário: KYC a distância instantâneo (fim do vídeo + scan de documento), SCA universal, assinatura de contrato via QES.
- Público: trâmites administrativos, embarque em avião (mDoc), cartão de saúde e receitas.
- Privado: verificação de idade, diplomas em um currículo, habilitação apresentada à polícia.
O que a EUDI Wallet não é
- Não é uma carteira de pagamento (neste estágio): sem cartões nem IBAN, ainda que uma convergência seja possível.
- Não é um documento nacional de identidade eletrônico único: é um contêiner de atestações das quais o documento de identidade é uma.
- Não é obrigatório para o cidadão: opt-in, mas os grandes serviços devem aceitá-lo.
- Não é um produto europeu único: uma carteira por Estado, interoperáveis via o ARF.
- Não é a Apple Wallet: a Apple Wallet é privada e proprietária; a EUDI é pública e normatizada, ainda que a Apple Wallet pudesse distribuir credentials EUDI.
Os Large Scale Pilots
Quatro consórcios testam a carteira em 2024-2025: POTENTIAL (conta bancária, pagamento, saúde, viagem, assinatura), NOBID (foco em pagamento, países nórdicos + Itália), EWC (viagem, pagamento) e DC4EU (educação, seguridade social).
Cronograma operacional
- 2024-2025 — pilotos em curso, ARF estabilizado.
- 2026 — cada Estado fornece sua carteira.
- 2027 — VLOP e bancos devem aceitá-la.
No ecossistema PSD2 / FIDA
A EUDI Wallet é o ancoramento de identidade do Open Finance europeu:
- DSP3 / PSR: SCA via carteira, fim do OTP por SMS e do app bancário em silo.
- FIDA: autenticação do PSU para o compartilhamento de dados.
- AMLR: KYC pan-europeu e harmonização dos padrões de CDD.
Exemplos concretos
- France Identité: mais de 1 milhão de downloads em 2025, base da carteira francesa.
- Qonto: demo no piloto POTENTIAL — KYC de uma GmbH alemã via carteira DE, abertura em menos de 5 minutos.
- Apple iOS: a Apple aceitou em 2024 abrir o acesso ao NFC para permitir a EUDI Wallet (DMA + eIDAS).
- Open Wallet Foundation vs Apple/Google: vontade europeia de evitar a captura pelas carteiras proprietárias americanas.
- Comparação com o Aadhaar: o Aadhaar é centralizado (base de Estado), a EUDI é descentralizada (carteira local) — dois modelos opostos.
- Vínculo com o xPay: a prazo, identidade (EUDI) e pagamento (xPay, Wero) poderiam se fundir em uma carteira europeia unificada.